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À luz dos recentes eventos envolvendo Israel e a Palestina, parece-me apropriado apresentar uma sugestão sobre como esse aparentemente interminável conflito poderia ser resolvido.  Para por um fim na contínua violência na região, muitos defensores da Palestina estão exigindo a completa abolição do estado israelense.  Apesar de esta não ser uma idéia ruim, estar-se-ia atacando apenas parte do problema.  A única solução definitiva seria abolir ambos os estados — o israelense e o palestino —, pois, enquanto esses governos existirem, não tem como haver paz e liberdade na região.

De fato, de um ponto de vista estatista, esse conflito é um impasse constante; ambos os governos palestinos e israelenses, e muitos de “seus” respectivos cidadãos, reivindicam o mesmo pedaço de terra.  E ambos os lados também sustentam essas reivindicações com base em diferentes argumentos históricos e religiosos, em uma batalha verbal impossível de ser arbitrada objetivamente.

A violência, é claro, é a marca característica do conflito.  De um lado, os nacionalistas islâmicos da Palestina lançam mísseis, granadas e cometem atentados suicidas contra vários alvos em Israel, já que consideram que o governo israelense está ocupando ilegalmente a terra “palestina”.  Do outro lado, o governo israelense bombardeia as áreas palestinas que ele supõe estarem servindo de abrigo para terroristas, frequentemente atingindo e matando civis.  Todos esses ataques violentos incitam contra-ataques do lado oposto do conflito, criando assim uma incessante espiral de violência.

O problema, entretanto, não é qual o lado que está certo, isto é, qual dos dois governos tem o direito de controlar todas as partes do território israelo-palestino.  O problema, pra começar, é a própria existência desses dois governos — e o fato de eles reivindicarem qualquer que seja o pedaço de terra.

Examinemos as duas principais propostas que são tipicamente apresentadas por estatistas como sendo a maneira correta de resolver esse conflito que já dura seis décadas.

A primeira é a solução popular dos “dois estados”, sendo a idéia geral a de que ambos os governos deveriam coexistir lado a lado e buscar um acordo de paz que colocaria um fim na violência.  Uma condição vital para esse acordo seria, obviamente, que os dois governos — um “israelense” e um “palestino” — cheguem a uma conclusão final sobre qual pedaço de terra deveria pertencer a qual país.

Atualmente, o “Estado da Palestina” está dividido em duas áreas diferentes: a Cisjordânia e a Faixa de Gaza.  Ambas estão separadas por 40 quilômetros — e havemos de concordar que seria muito difícil formar um país palestino sem antes juntar essas duas áreas geográficas.  Entretanto, se isso fosse feito, Israel seria dividido em duas, o que seria igualmente impraticável (para um israelense chegar ao outro lado do seu país, ele teria obrigatoriamente de cruzar a Palestina).  O resultado seria uma indignação nacional entre os israelenses, particularmente entre aqueles que vivem nas áreas que passariam para o controle palestino.

Também é difícil imaginar o governo israelense entregando voluntariamente o controle da Cisjordânia ao governo palestino, principalmente quando se leva em conta que a Cisjordânia circunda a maior parte da cidade de Jerusalém, que não apenas é a verdadeira capital de Israel como também é considerada uma cidade sagrada tanto pelos judeus quanto pelos muçulmanos.  Outro problema é que os governos têm a incontrolável tendência de tentar expandir suas jurisdições.  Esse certamente é o caso do governo de Israel, principalmente no que tange sua presença na Cisjordânia.  Tudo isso significa que os dois governos iriam discutir eternamente (ou pior, brigar) sobre qual pedaço de terra pertence a quem, uma vez que ambos consideram que tudo ou quase tudo lhes pertence por direito.

Mas mesmo se essa questão específica fosse acordada entre os governos, eles ainda continuariam enfrentando os mesmos problemas de violência.  Afinal, a principal rixa que a maioria dos nacionalistas palestinos radicais tem com Israel não está relacionada aos tão debatidos assentamentos israelenses na Cisjordânia, mas sim à existência de todo o estado israelense em si.  Esses palestinos não querem viver sob um governo israelense, não importa o quão pequeno ele seja. E, ao mesmo tempo, eles consideram que todo Israel pertence à Palestina.  Portanto, os radicais islâmicos iriam continuar sua guerra contra Israel porque acham que está havendo uma ocupação ilegítima e continuada da Palestina.  O governo israelense, por sua vez, iria retaliar bombardeando as áreas palestinas como forma de vingança ou sob a alegação de estar caçando terroristas, sustentando assim a espiral de violência.  Ademais, todos esses ataques também apresentam um “efeito hidra”: ao se matar um palestino ou um israelense, uma dúzia de amigos e parentes irão jurar vingança pela morte do ente querido.

Um complicador adicional é a batalha interna travada entre o Hamas e o Fatah pelo poder da Palestina. Os objetivos de cada partido são muito diferentes.  O Fatah, cuja atual base é a Cisjordânia, mostrou interesse em trabalhar junto ao governo de Israel em busca de uma solução que envolve o reconhecimento mútuo de ambos os estados.  Em nítido contraste, o objetivo primário do Hamas, partido baseado em Gaza, é acabar com todo o estado israelense.  Considerando-se a popularidade do Hamas e seu ativismo militante, as perspectivas de cooperação entre os dois partidos não são muito animadoras.

Também é ingenuidade pensar que um mágico acordo de paz será repentinamente alcançado e solucionará todas as disputas entre as duas nações e entre todos os partidos envolvidos, principalmente quando se considera todos os acordos de paz anteriores que já foram tentados.  O último ocorreu em Annapolis — capital do estado de Maryland —, em novembro de 2007 (e o Hamas boicotou), onde o objetivo era atingir uma resolução definitiva até o fim de 2008.  A ironia macabra é que, exatamente durante a última semana de 2008, mais de 400 pessoas foram mortas em novos confrontos entre palestinos e o governo israelense.

É por isso que é necessário relembrar o cerne da razão do conflito, a saber: a existência do estado israelense jamais será tolerada por todos os palestinos, e sempre será recebida com violência.  Trata-se também de uma batalha entre dois estados rivais, cada qual competindo pelo controle político e militar sobre os mesmos territórios.

O que nos leva à segunda e menos popular solução para o conflito: fundir as duas nações antagônicas em um único estado.  Isso até poderia eliminar as disputas territoriais, mas não resolveria muitos outros problemas que tornariam essa alternativa uma impossibilidade.

Um dos mais óbvios desses problemas seria o processo de criação de leis dentro deste novo e unificado país.  Imagine o caos que resultaria se, por exemplo, o Kadima, o atual partido governante israelense, e o Hamas estivessem tentando chegar a um acordo legislativo, quando bem se sabe que o Kadima (bem como o Likud) considera o Hamas uma organização terrorista — e vice versa, de certo modo.  Os principais partidos políticos de ambos os países têm opiniões amplamente divergentes sobre tudo, desde questões internas até política externa.  Os políticos israelenses, além de pautarem grande parte de sua ética na fé judaica, tendem a ser mais ocidentalizados, ao passo que a maioria dos políticos palestinos tende a ser mais de esquerda e fortemente influenciada pelo islã.  Nesse cenário, o que prevaleceria?  Deveriam as atuais leis israelenses ser adotadas, ou o novo governo deveria tentar criar um “estado islâmico”, do tipo que o Hamas quer construir?  (Não se está dizendo aqui que todos os israelenses e palestinos têm visões diametralmente opostas sobre ética e política, mas o problema é suficientemente grande para causar um conflito interno em larga escala).

Outro problema com a solução do estado único está relacionado ao equilíbrio de poder dentro do governo.  Os israelenses são bem mais numerosos que os palestinos naquela área, o que significa que os políticos palestinos provavelmente iriam constituir uma minoria dentro do parlamento, e talvez até mesmo seriam reduzidos ao papel de eterna oposição.  Isso dificilmente agradaria aos palestinos que estão tentando diminuir o poder político de Israel na região.  Com efeito, é bem possível que esse sistema pudesse acabar reduzindo o poder político que os palestinos possuem hoje.  Se o jogo virasse e os palestinos e outros árabes ganhassem a liderança do Parlamento, em conseqüência de uma diáspora palestina, por exemplo, muitos israelenses certamente se mostrariam em feroz desacordo com o novo governo.  Isso indubitavelmente geraria protestos agressivos e desordem civil entre os israelenses.

Desta forma, uma preocupação muito real em ambos os cenários seria a eclosão de uma guerra civil entre “palestinos” e “israelenses”; ou que grandes grupos de pessoas se amotinassem em algumas regiões, seja em Gaza, na Cisjordânia ou em partes do atual Israel, e tentassem se livrar do estado nacional para formar miniestados autônomos, usando de violência se necessário.

As diferenças de ética e fé entre o judaísmo e o islã geralmente não são nenhum problema para duas famílias, uma judia e a outra muçulmana, que são vizinhas (uma vez que ambas são donas de suas respectivas vidas e propriedades).  Mas se tornam um enorme perigo e um obstáculo para a paz quando manipuladas para fins políticos.  Afinal, judeus e muçulmanos viveram lado a lado durante 13 séculos no mundo árabe, até que a criação do Estado de Israel estimulou o ódio e o conflito entre os dois grupos da região.  Trata-se, portanto, não de um conflito predominantemente religioso, mas sim de um conflito político.

O líder do Hamas, Khaled Meshaal, escreveu o seguinte em um editorial do jornal britânico The Guardian:

“Nossa mensagem aos israelenses é essa: não lutamos contra vocês porque pertencem a uma determinada fé ou cultura…. Não temos problema algum com judeus que não nos atacaram — nosso problema é com aqueles que vieram à nossa terra, impuseram-se através da força, destruíram nossa sociedade e baniram nossa gente, os sionistas.”

De fato, quando a ONU decidiu dividir a Palestina, em 1947, para criar o estado israelense, 70 por cento da população da área era palestina, ao passo que a população judaica consistia de pioneiros sionistas que eram donos de aproximadamente 8 por cento da terra.  Em qualquer parte do mundo, não importa qual grupo étnico ou religioso esteja envolvido, dar a um grupo minoritário o poder político sobre a terra de outras pessoas é estar procurando encrenca das grossas.

É preciso lembrar que, nesse conflito, não são apenas os palestinos que estão pagando um alto preço em vidas humanas.  Pelo simples fato de existir, o governo de Israel põe em risco a segurança e o bem-estar dos israelenses, dos judeus e de outros civis em todo o mundo.  Incontáveis seqüestros e ataques terroristas foram cometidos ao longo de décadas por grupos pró-Palestina como forma de protesto contra Israel.  Num dos exemplos mais recentes, dois vendedores israelenses foram assassinados na Dinamarca, nas vésperas do Ano-Novo, por um palestino.  Acredita-se que foi simplesmente um ato de vingança contra os recentes bombardeios praticados pelo governo de Israel na Faixa de Gaza.  Assim como muitos inocentes americanos foram automaticamente associados aos atos cruéis de George W. Bush, muitos israelenses inocentes são associados aos delitos do governo de Israel.

Israel é frequentemente aclamado por defensores ocidentais como sendo um farol da democracia em uma região repleta de governos antidemocráticos.  Esse “triunfo” democrático, entretanto, é na verdade um dos maiores obstáculos para a paz nesse conflito.  Como Hans-Hermann Hoppe mostrou em seu livro, Democracia – o deus que falhou, governos democráticos não temem ir à guerra contra outros países e desperdiçar enormes quantidades de recursos nesse processo.

Existem várias razões econômicas para isso.  Uma é o fato de que os políticos israelenses não são os donos do governo de Israel, mas apenas administradores.  Sendo assim, eles têm pouco interesse econômico em manter uma rédea curta nos gastos governamentais, já que estão gastando o dinheiro de outras pessoas e somente por um período de tempo limitado.  Isso também significa que o governo não está lá muito preocupado com o valor de mercado das áreas que invade ou ocupa, uma vez que os políticos, na condição de não-proprietários do governo, não têm que se preocupar com o valor futuro das terras ocupadas e devastada pela guerra.  Assim, utilizar bombas e o poderio militar para combater qualquer ameaça estrangeira imaginável é a saída mais “fácil”.

Governos democráticos sempre obtêm êxito em fazer com que a maior parte da população apóie essas aventuras militares.  O segredo é retratá-las como respostas naturais e necessárias aos ataques estrangeiros desferidos sobre “nós” e sobre “a nossa nação”, apelando assim para o sentimento patriótico mais básico.

Ademais, considerando-se que a principal fonte de receita do governo é a taxação — isto é, a extração forçosa do dinheiro dos “clientes” — não há qualquer mecanismo de cálculo de lucros e prejuízos baseado na venda de produtos.  Não há como se fazer qualquer consideração acerca da “eficiência” do empreendimento.  O fato de a maioria dos governos gastar mais do arrecada é uma regra que dificilmente encontra exceção.  Com efeito, a dívida “nacional” de Israel já se encaminha celeremente para a marca de 100% do PIB, ficando acima de 80% no final de 2007.

Os governos também não têm concorrentes com quem se preocupar, no sentido de que ninguém mais tem como seduzir seus “clientes” oferecendo-lhes uma melhor oferta de proteção policial ou de outros serviços atualmente monopolizados pelo governo.  “Otimização de recursos” é uma frase de efeito que não provoca efeito algum nos governantes.

Agora compare tudo isso com uma “terceira” solução: abolir ambos os estados israelenses e palestinos.  Primeiro, isso iria sem dúvida alguma acabar com uma boa quantidade dos conflitos que hoje assolam a região.  Afinal, o objetivo de todos os grupos militantes palestinos — livrar-se do estado israelense — estaria agora realizado.  Assim, não mais haveria “necessidade” de atacar qualquer parte da antiga Israel, uma vez que não mais existiria um governo israelense contra o qual lutar.  Em troca, não mais haveria qualquer “necessidade” de as antigas tropas israelenses bombardearem as áreas palestinas sob a alegação de estarem lutando uma guerra contra o terrorismo.

Segundo, as agências de proteção privada agora incumbidas da tarefa de oferecer proteção policial e militar iriam operar de uma forma radicalmente diferente dos agora abolidos governos.  Diferentemente dos políticos, os proprietários dessas agências teriam sempre de levar em consideração os gastos. Eles teriam de ponderar se gastar enormes quantias de dinheiro em guerras seria uma boa maneira de se resolver contendas. Essa decisão seria facilitada pelo fato de essas agências terem orçamentos muito limitados, dado que seu fluxo de renda advém apenas de clientes voluntários.  Guerras são muito custosas e gerariam um rombo enorme no orçamento de qualquer agência de proteção, rombo esse que não poderia ser remediado via aumento de impostos, impressão de dinheiro ou endividamento pesado através da venda de papéis equivalentes aos títulos do governo.

Além disso, as agências de proteção teriam de concorrer entre si para conquistar clientes, o que significa que elas teriam de se virar para oferecer a “otimização de custos” que os governos tão arrogantemente desprezam.  Isso significa bons serviços a custos baixos, o que também não deixa muita margem de lucro para se gastar em guerras.  Os clientes também estariam mais interessados em agências de proteção que gastam seus lucros no aperfeiçoamento de seus serviços e na redução de preços do que em agências que gastam dinheiro com guerras irracionais.

Mas não seria a Palestina atualmente uma sociedade em grande parte anarquista?  A resposta curta é não.  Embora algumas partes da Cisjordânia estejam de fato em uma situação que poderia ser descrita como “anárquica”, há ao menos dois governos competindo pelo controle dessas áreas.  Grande parte da Somália também ficou “sem estado” durante vários anos, mas durante todo esse tempo havia ao menos três governos intervindo e tentando desestabilizar para assumir o controle do país.  Só porque há um controle limitado do governo não significa que não há controle governamental.

Mas e quanto aos governos do Irã, da Síria ou dos outros países vizinhos?  Eles não aproveitariam essa oportunidade para invadir a área agora desestatizada de Israel/Palestina?  Pra começar, é difícil imaginar qual seria o alvo do ataque.  Com o agressivo governo israelense abolido, e com os israelenses e palestinos vivendo lado a lado sem qualquer capacidade de se oprimirem mutuamente via meios políticos, não haveria nada para esses estados bandidos atacarem.

Se o governo iraniano ou qualquer outro enxergasse a desestatizada região israelo-palestina como uma oportunidade para novas conquistas e resolvesse invadi-la para estabelecer um estado islâmico (o que obviamente iria exigir o uso da força, assim como acontece durante a criação de qualquer governo), ele antes de teria de lutar contra as agências de proteção.  À primeira vista, pode parecer moleza para as forças armadas iranianas derrotar um grupo de agências de proteção privada e independentes entre si, cujos “exércitos” são muito menores.  Mas as aparências podem enganar.  Há basicamente duas maneiras de se derrotar qualquer grande exército governamental: uma, é tendo um exército ainda maior e mais avançado; a outra, é utilizando pequenas milícias e grupos de insurgência.  Há inúmeros exemplos históricos dessa última: os vietcongues contra as forças armadas americanas; o Talibã contra a União Soviética no Afeganistão; os americanos contra o governo britânico durante a Revolução Americana; e, no atual exemplo, os militantes dos grupos palestinos que vêm mantendo o exército israelense ocupado por meio século.

É muito mais difícil combater um inimigo que não “existe” ou que não é claramente reconhecível e definível do que combater um exército governamental.  Isso foi algo que o governo dos EUA acabou aprendendo durante a guerra no Iraque.  Logo de início as forças armadas americanas derrotaram facilmente o exaurido exército governamental iraquiano. Mas desde então o governo americano já gastou mais de $500 bilhões lutando contra insurgentes iraquianos que surgem do nada e se camuflam facilmente entre os nativos.

Ademais, a maioria dos israelenses hoje é bem armada e bem treinada para combate, graças ao passado tormentoso de Israel.  Isso muito provavelmente continuaria sendo a regra caso o governo de Israel fosse abolido, particularmente entre os judeus, dada a alta concentração de estados islâmicos perigosos na vizinhança.

Concluindo, é vital que o movimento sionista entenda que a idéia de uma terra de Israel não é igual a — e nem requer um — estado israelense.  Também é vital entender que jamais poderá haver paz e estabilidade na região enquanto houver um governo israelense; da mesma forma, jamais poderá haver uma “Palestina livre” enquanto houver um governo palestino.  A única maneira de se ter prosperidade é através da paz e do comércio, e isso só virá através de uma sociedade sem estado.

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