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O capitalismo como agente apaziguador

1.0 – O homem, o Estado e a escassez

Thomas Hobbes, famoso filósofo contratualista inglês, usa a expressão “Guerra de todos contra todos”(Bellum omnium contra omnes) em seu livro O Leviatã para descrever a configuração humana em seu estado de natureza, i.e, na total falta de impedimentos externos, tais como leis e a própria coercitividade do Estado.
Segundo a visão hobbesiana, a inexistência de freios externos às ações humanas também criaria uma insegurança, pois a objetiva escassez de recursos levaria muitos a se apropriarem daqueles recursos já sob posse de alguém. Derivar-se-ia dessa condição uma eterna guerra de todos contra todos e, do desejo de cessá-la, se firmaria o contrato social e o Estado.

1.1 – O Estado, a guerra a as relações internacionais

Hobbes encarava o Estado como um corpo artificial que representava as pessoas, os corpos naturais.
“Uma multidão de homens é transformada em uma pessoa quando é representada por um só homem ou pessoa, de maneira a que tal seja feito com o consentimento de cada um dos que constituem essa multidão. Porque é a unidade do representante, e não a unidade do representado, que faz que a pessoa seja una. E é o representante o portador da pessoa, e só de uma pessoa. Esta é a única maneira como é possível entender a unidade de uma multidão.” (Hobbes).
Se antes a busca por recursos pelos homens gerava guerras, agora não é diferente. Distinguem-se apenas pelo fato de que agora os autores são os próprios Estados. A defesa da própria existência do Estado requer que ele guerreie, visando conservar e ampliar seu poder e influência, principalmente na presença de outras organizações da mesma natureza. Essas forças beligerantes agora comandadas e organizadas por ele podem conflitar com outras por motivos diversos: áreas de influência, terras, recursos, revanchismo ou defesa de um ideal, seja ele religioso, político ou econômico. Provas históricas do fenômeno guerra não faltam.

1.2 – A ordenação mercantil para guerra

Embora queiramos comprovar que é possível atingir uma paz duradoura através do mercado, é inegável o uso dele para fins bélicos do Estado. Em guerras de grande escala é visível o aumento do poder do Estado sob o mercado, muitas vezes fazendo dos proprietários de empresas meros fantoches do governo, como ocorreu no caso da Alemanha Nazista.
“Os proprietários dos meios de produção eram chamados de dirigentes comerciais, ou ‘Betriebsführer’. O governo dizia a estes supostos empreendedores o que produzir, como produzir, em quais quantidades e a que preços. O governo também determinava de quem eles deveriam comprar, a quais preços e a quem poderiam vender. O governo decretava os salários que deveriam ser pagos para cada trabalhador. E determinava também para quem e sob quais condições o capitalista deveria investir seus fundos.

As transações de mercado não eram genuínas; eram apenas um fingimento, uma simulação.

E, dado que todos os preços, salários e taxas de juros eram estipulados pelas autoridades, eram preços, salários e juros apenas na aparência. Com efeito, eram termos meramente quantitativos em meio a um ordenamento autoritário que determinava a renda, o consumo e o padrão de vida de cada indivíduo. Era a autoridade, e não os consumidores, quem comandava a produção.” (Ludwig von Mises, Planned Chaos).
O Estado alemão usou de subsídios e controle massivo para ordenar o mercado para uma guerra criada pelo próprio Estado. O mero sentimento revanchista alemão não seria convertido em demanda para produção de tanques, U-boots ou em aviões para a Luftwaffe, pois a essência de troca capitalista é a resolução de problemas sem força, como ponderou Franz Oppenheimer acerca do método econômico de obter meios para atingir fins. Por isso foi necessária a perversão do ideal capitalista pelo Estado Nazista.

1.3 – A Nova Ordem, a interdependência econômica e a paz

Por mais que sempre houvesse um certo grau de conectividade, a economia global nunca se viu tão interdependente quanto no período pós-queda do muro de Berlim. Empresas com filiais em vários continentes, produção distribuída, integração cada vez maior das economias nacionais e regionais no mundo todo, até mesmo na Rússia pós-soviética, se fôssemos nos ancorar em exemplos nos anos próximos aos de 1990.

Se durante a guerra fria o conflito direto entre as duas maiores potências não se deu pelo medo da destruição nuclear mútua, onde o poder de destruição dessas armas nas mãos dos beligerantes é de uma magnitude tão grande que um conflito iria gerar a destruição de ambos, na atual sociedade ela não se dá também pelo fato das economias estarem interligadas. Empresas com filiais em países ou blocos combatentes diferentes, importação e exportação entre eles e o mercado nacional como um todo estarem ligados são empecilhos enormes.

A guerra, porém, não foi completamente cessada, ela se restringiu aos países economicamente não muito expressivos, e mesmo nesses a tendência é o gradual término dos conflitos. As duas maiores economias globais, China e Estados Unidos, apesar dos empasses militares, se enfrentam apenas nos meios econômicos e diplomáticos.

A China constrói ilhas artificiais no mar da China meridional, que, apesar do nome, banha também o Vietnã, as Filipinas, Malásia e Brunei. Os chineses alegam soberania quase total do mar, inclusive de ilhas mais próximas de outros países. Quase 1/3 de todo comércio mundial passa por essas águas, além de possuir uma zona pesqueira e petrolífera riquíssimas. A importância dessa região é agora clara, mas justamente pelo infrator de acordos internacionais na região ser a China que a essa prática não se escala para conflitos com os americanos, que alegadamente desgostam dessas medidas.

Se em 1914 o estopim embebido do imperialismo europeu foi o assassinato do arquiduque da Áustria, Francisco Fernando, hoje ações mais agressivas não teriam efeito nem um pouco parecido, como visto no exemplo do parágrafo anterior. Nos atuais tempos as maiores disputas apenas ocorrem no ramo econômico, como por exemplo a disputa comercial entre China e EUA, iniciada em 2018, através da imposição tarifária de produtos um do outro.

Os Estados, hoje, dependem da boa ocorrência dos fenômenos econômicos, e esses, por sua vez, dependem de uma boa relação com os países aos quais estão interligados comercialmente, fazendo da guerra a opção menos viável de todas. O capitalismo, de certa forma, colocou alguns limites nas ações do Estado. Apesar de alguns conflitos locais, vivemos em um dos períodos mais pacíficos da história humana e a grande parcela dessa conquista devemos à evolução do mercado e do capitalismo.

1.4 – O mercado, as relações interindividuais e a paz

Não só entre Estados que o capitalismo apazigua as tensões, mas também entre as relações interindividuais. Em um certo trecho do documentário “Free to choose”, o economista Milton Friedman pega um lápis de seu terno e com ele da uma das maiores lições acerca de capitalismo e liberdade. Ele começa dizendo: “Não existe uma só pessoa no mundo que poderia fazer este lápis. A madeira de que é feito (o lápis) pelo que eu sei vem de uma árvore derrubada no estado de Washington. Para derrubar aquela árvore foi necessária uma serra. Para fazer a serra, foi necessário o aço. Para fazer o aço, foi necessário o minério de ferro.”

Ele prossegue destrinchando: “Este centro escuro, nós o chamamos de chumbo, mas na realidade é grafite, grafite comprimido. Eu não tenho certeza de onde vem, mas acho que vem de algumas minas da América do Sul. Este topo vermelho aqui, o apagador, um pouco de borracha, provavelmente vem da Malásia, de onde a seringueira não é sequer nativa. Ela foi importada da América do Sul por alguns homens de negócios com a ajuda do governo inglês. Este envoltório de latão, eu não faço a menor ideia de onde ele veio ou a tinta amarela, ou a tinta amarela, ou a tinta que faz as linhas pretas, ou a cola que mantém ele inteiro.”

A parte a seguir creio que seja a mais esclarecedora de todas: “Literalmente, milhares de pessoas cooperaram para fazer este lápis. Pessoas que não falam a mesma língua; que praticam religiões diferentes; que poderiam se odiar umas às outras caso se encontrassem. Quando você vai à loja e compra este lápis, você está na verdade trocando alguns minutos do seu tempo por alguns segundos do tempo de todas aquelas milhares de pessoas. O que as reuniu e as levou a cooperar para fazer este lápis? Não houve um comissário emitindo ordens de um escritório central.

Foi a mágica do sistema de preços, a operação impessoal dos preços que os reuniu e os fez cooperar para produzir este lápis para que você possa tê-lo por uma quantia insignificante. É por isso que o funcionamento do mercado livre é tão essencial, não apenas para promover eficiência produtiva, mas ainda mais, para promover harmonia e paz entre os povos do mundo.”
Com um simples lápis Friedman explica a complexidade do sistema capitalista e que a existência de cooperação de diferentes pessoas pode ocorrer sem qualquer forma de conflitos. Essa cooperação não se dá de forma artificial, pois nenhum dos integrantes do processo faz sua parte com a intenção de ajudar o outro. O elo que mantém essa cooperação funcionando é o desejo dos integrantes em melhorar suas próprias vidas, pois, como dizia Adam Smith: “Não é da benevolência do padeiro, do açougueiro ou do cervejeiro que esperamos que saia o nosso jantar, mas sim do empenho que eles têm em promover o seu próprio interesse.”


Bibliografia:
HOBBES, Thomas. Leviatã, Martin Claret
VON MISES, Ludwig. Planned Chaos, FEE

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