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Todos nós temos estranhos e contraditórios desejos acerca de como os preços devem funcionar. Ficamos ultrajados quando os preços dos alimentos e da gasolina sobem. Nunca queremos que eles aumentem e nunca achamos que eles devem aumentar. Em termos reais, queremos que eles caiam continuamente — e, no caso dos alimentos, eles de fato caíram durante a última década e meia. Isso é bom, certo? É assim que o mundo deveria funcionar.

Mas, e quanto a imóveis? Agora, sim, estamos em um terreno distinto.  Quando os preços caem, as pessoas se desesperam. É como se o fim do mundo estivesse próximo. Como é possível que minha própria casa caia de preço?! Não é assim que o mundo deveria funcionar. Todo mundo sabe que os preços dos imóveis sempre devem subir, ininterruptamente, continuamente, sem parar, até o fim dos tempos.

O mesmo vale para ações. Sempre que vamos checar o valor de nosso portfólio, queremos que os preços das ações em nossa carteira estejam cada vez mais altos, sempre. Quando eles caem, entramos em desespero e exigimos justiça.

Mas paremos um pouco para pensar no quão peculiar é isso tudo. Que tipo de teoria a respeito do mundo insiste em afirmar que imóveis e ações sempre devem se valorizar, ao passo que gasolina e alimentos sempre devem cair de preço? Isso não faz sentido algum. Um preço não é determinado por uma lei natural; tampouco o movimento dos preços deve seguir algum tipo de padrão, como o movimento das estrelas. Preços nada mais são do que taxas cobradas em uma troca — um ponto de acordo entre o comprador e o vendedor, onde ambos se beneficiam. Os preços são um reflexo de vários fatores, e nenhum deles é parte fixa do universo.

Portanto, por que desejamos que alguns preços sempre subam e que outros sempre caiam? Tudo depende, é claro, da posição em que você está: se na do consumidor ou na do produtor. Enquanto proprietários, somos de fato “produtores” de nossos imóveis; o que quer dizer que estamos mantendo nossos imóveis com a esperança de que, algum dia, iremos colocá-los à venda. O mesmo se aplica a ações. Já que somos os donos delas, é claro que queremos que seus preços subam. E então poderemos vendê-las e obter um lucro.

De um lado, em relação às coisas que queremos comprar, coisas como gasolina e alimentos, queremos que seus preços sejam os mais baixos possíveis. Queremos que seus preços caiam continuamente. Queremos poupar recursos.

Portanto, o que está em jogo aqui é o interesse próprio. Pense na mesma situação do ponto de vista de alguém que esteja comprando um imóvel. Esta pessoa quer preços altos ou preços baixos? É claro que a resposta é óbvia. Esta pessoa quer o preço mais baixo possível, de modo que, para esta pessoa, o estouro de uma bolha imobiliária não representa de maneira alguma algo ruim.  Ao contrário, é uma dádiva. Porém, tão logo esta pessoa se torne uma proprietária de imóvel, a situação se altera. Agora ela quer que os preços subam constantemente.

Agora pense no proprietário de um posto de gasolina. Se o preço cobrado não afetasse sensivelmente seu volume de vendas, ele iria querer que os preços subissem ou caíssem? É claro que ele iria querer os preços mais altos possíveis.

Lembro-me de certa vez ter pechinchado com um daqueles insuportáveis vendedores de carros.  Eu estava de olho em um carro, mas havia dito que não tinha condições de bancá-lo.  Ele me perguntou quanto eu gostaria de pagar por aquele carro.  Eu disse $0.  Ele arregalou o olho e me encarou como se eu fosse louco, mas eu estava apenas dizendo a verdade.  Acrescentei dizendo que sabia quanto ele queria que eu pagasse: $1 trilhão.  E ele relutantemente concordou.  Sendo assim, como é que a pessoa que quer pagar $0 e a pessoa que quer receber $1 trilhão chegam a um acordo?  Ambos chegam a um meio termo, um valor no qual o carro vale mais para mim do que o dinheiro que estou disposto a dar em troca dele, e no qual o dinheiro que darei pelo carro vale mais para o vendedor do que o carro.  Os termos resultantes são chamados de preço.

E funciona assim em todos os mercados.  Podemos ver por que é totalmente absurdo tentar moldar a política nacional em torno dos interesses de apenas um dos lados de uma transação. Tentar, por exemplo, manter os preços dos imóveis altos e crescentes representaria uma trapaça contra o comprador. Tentar manter os preços baixos seria uma vigarice contra o atual proprietário. Manter os preços dos alimentos altos ajuda os agricultores mas prejudica os consumidores.  Algumas petrolíferas podem gostar de preços altos para a gasolina, mas os consumidores os odeiam vigorosamente.  Por outro lado, uma redução forçada dos preços da gasolina pode empolgar os consumidores, mas os produtores podem acabar sendo tão prejudicados a ponto de terem de encerrar várias de suas operações.  E isso não seria bom para ninguém.

A única e genuína solução aqui é deixar o livre mercado decidir — o que é apenas outra maneira de dizer que as pessoas devem ser livres para fazer suas próprias negociações a respeito dos preços que elas estão dispostas a pagar ou a aceitar por isso e por aquilo.  Tais termos de acordo devem ser tão flexíveis quanto à própria valoração humana.  Isso significa que nós devemos ser livres para mudar de opinião, com cada troca sendo considerada um fim em si mesma, sem nenhum vínculo com futuros termos de acordo para futuras trocas deste mesmo bem ou de quaisquer outros bens.

Isto não apenas está de acordo com os pré-requisitos da liberdade — qualquer tentativa de forçar os preços a fazer isto ou aquilo será uma transgressão da nossa liberdade de negociação —, como também é essencial para o bom funcionamento de uma economia.  Isto porque o preço é fortemente influenciado por fatores como a disponibilidade de recursos, as valorações subjetivas dos consumidores e a lucratividade do empreendimento à luz dos custos de produção.  No final, os registros contábeis têm de estar no azul.  Os preços que são aceitos no mercado devem sustentar este estado de coisas.  Mesmo em mega-indústrias, como a petrolífera, a diferença entre receitas e gastos pode ser surpreendentemente pequena.  E mesmo pequenas mudanças tributárias ou regulatórias podem levar empresas de todos os tamanhos à falência.

Preços são cruciais para fazer com que uma quantidade escassa de recursos seja distribuída de maneira racional e sensata em um mundo que possui desejos ilimitados de consumo.  Preços afetam a maneira como utilizamos as coisas, seja conservando-as ou jogando-as fora.  Preços mais altos para a gasolina alteram a maneira como você toma decisões sobre viagens, deslocamentos e quaisquer outros movimentos, por menores que sejam.  E isso é algo bom.  Preços mais altos sinalizam uma necessidade de se conservar os bens — e tudo sem que haja mandatos e decretos impraticáveis do governo.  E do ponto de vista de um produtor, os preços vigentes fornecem informações cruciais a respeito da previsão de lucros futuros — portanto, das decisões atuais de investimento.

Mas temos também de abordar a questão da justiça. Pensamos saber o que é um preço justo.  Mas será que realmente sabemos? E o que realmente constitui justiça nos preços? A primeira coisa que me vem à mente é a Parábola do Tesouro no Campo.  Um desavisado proprietário de terras vive sua rotina diária sem saber que existe um tesouro em seu quintal. Mas um outro sujeito, no entanto, possui conhecimento deste tesouro.  Consequentemente, este indivíduo vende tudo o que possui, bate à porta do desavisado proprietário da terra e, de forma relaxada e casual, diz que gostaria muito de poder comprar sua propriedade.  O proprietário a vende.

Mas sejamos claros aqui: o proprietário não sabia que havia um tesouro enterrado em seu quintal. Tampouco o comprador disse qualquer palavra a respeito — caso contrário o preço da propriedade iria para as galáxias.  Nos dias de hoje, as pessoas diriam que o proprietário foi espoliado.  Mas Jesus não diz isso.  Ele apresenta o comprador como um homem sábio e moral.  Interessante, não?  Houve justiça nesta troca?  Certamente.  E por quê?  Porque ambos os envolvidos concordaram voluntariamente em fazer a transação.  E isso é tudo o que interessa.

Não há nenhuma maneira de observar um preço vigente e declarar se ele é justo ou injusto.  Como disse São Bernardino de Siena, um perspicaz observador de assuntos econômicos,

A água é geralmente barata porque é abundante. Mas pode ocorrer que, em uma montanha ou outro lugar, a água seja escassa, não abundante. Pode muito bem ocorrer que a água seja muito mais valiosa que o ouro, caso o ouro seja mais abundante nesse lugar que a água.

Os escolásticos tardios, seguidores de Santo Tomás de Aquino, concordaram que o preço justo não possui valor fixo.  Tudo depende da avaliação comum dos vendedores e compradores.  Luis de Molina resumiu a questão:

Um preço é considerado justo ou injusto não em razão da natureza das coisas em si — isto nos levaria a valorá-las de acordo com sua nobreza ou perfeição — mas devido à sua capacidade de servir à utilidade humana. Porque essa é maneira pela qual são avaliadas pelos homens, elas assim impõem um preço no mercado e nas trocas.

Agora, há maneiras de um preço se tornar uma questão de injustiça.  Ele pode mascarar uma fraude.  Os preços podem resultar de um ato de força ou serem influenciados por ele, como ocorre quando há controle de preços, ou tributação, ou restrições artificiais da oferta e da demanda.  Por trás de cada um destes atos, encontramos coerção; um grupo de pessoas ditando ordens ou restringindo transações voluntárias de uma maneira que é incompatível com a liberdade de escolha.  Comprovadamente, isto não é justo.

Podemos concluir, portanto, que, quando reclamamos que algum preço é injusto, temos antes de analisar quais restrições estão ocorrendo no mercado, ou examinar o papel que os impostos estão desempenhando em jogar os preços para um nível muito acima do que estariam caso houvesse um ambiente de plena liberdade de mercado.

E no que diz respeito àqueles que acreditam que todos os preços deveriam sempre se mover de tal maneira a beneficiar seus próprios e específicos interesses econômicos em detrimento de todos os outros indivíduos, apenas uma observação: não confundam seus desejos com justiça. Os preços vigentes em uma economia de mercado são um reflexo de acordos cooperativos envolvendo pessoas dotadas de liberdade de escolha. Ninguém tem o direito de interferir nisso. Não seria algo justo.

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